O Mundo no Arame, um reflexo de Fassbinder sobre realidade e poder // World on a Wire, a reflection by Fassbinder on reality and power

Carlota Matos
7 min readJul 25, 2021

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English translation below

🏆 Crítica vencedora do 3º prémio — Ex aequo do passatempo do programa Raridades I da Quarentena Cinéfila da Medeia Filmes

**Contém spoilers**

www.film-grab.com

Nesta nova Quarentena Cinéfila on-line, a Medeia Filmes apresenta Raridades, disponibilizando filmes gratuitamente em streaming. O segundo destes foi uma versão restaurada de O Mundo no Arame (1973), do ilustre cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder no seu primeiro trabalho em televisão, inacessível durante quase 40 anos. Baseada num romance americano de 1964 e lançada em dois episódios, esta minissérie de ficção científica viria a abrir caminho para filmes icónicos como The Matrix (1999).

O filme acompanha Fred Stiller (Klaus Löwitsch), trabalhador do Instituto de Cibernética e assistente num projecto de realidade artificial. Após a morte misteriosa de Henry Vollmer (Adrian Hoven), seu director e com quem co-criou um modelo de simulação, Stiller assume o seu cargo. O chefe de segurança do instituto conta-lhe que Vollmer havia levado consigo um segredo que o estava a incomodar, capaz de destruir o mundo inteiro. Antes de conseguir revelar que segredo seria esse, desaparece inexplicavelmente e parece que ninguém se lembra de ele alguma vez ter existido. Stiller resolve fazer deste enigma a sua missão, e resolvê-lo a qualquer custo.

Stiller entra na simulação através de um capacete que faz lembrar 2001: Odisseia no Espaço (1968). O mundo artificial parece em tudo igual à “realidade”, como um reflexo. No início do filme, Vollmer segura um espelho e diz “O senhor não é mais do que a imagem que os outros formaram de si”. Espelhos e reflexos são recorrentes ao longo de todo o filme, em vidros, mesas, janelas e outros objectos. Em algumas cenas, torna-se difícil decifrar se estamos a ver um reflexo ou não.

No final do primeiro episódio, Stiller é confrontado com a possibilidade do mundo dele ser também uma projecção. Cedo descobrimos que “pessoas” (unidades de identidade) que descobrem que não passam de circuitos eléctricos num mundo artificial são apagadas dele, como aconteceu com Vollmer. De facto, se um dia for possível criar uma realidade simulada, então a probabilidade de que já estejamos numa é bastante elevada. Ainda assim, Stiller fica em choque, entrando primeiro em negação e depois em transe.

O segundo episódio faz-nos questionar “O limite entre o génio e a loucura”, como diz uma das personagens. Mergulhamos num jogo de poder, em que Stiller é acusado de paranóia e de ter assassinado Vollmer. A busca pela verdade parece levá-lo à loucura, enquanto tenta provar a sua sanidade tanto aos outros como a si próprio. “Penso logo existo”, diz Stiller evocando Descartes, fazendo-nos duvidar do sentido da nossa realidade e existência. Quando a mulher que Stiller ama desaparece em frente aos seus próprios olhos, temos a certeza de que este mundo não é tão real quanto aparenta.

A representação da mulher não atinge o padrão a que nos habituou Fassbinder com filmes como As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972) ou O Casamento de Maria Braun (1979). Em O Mundo no Arame, as mulheres parecem ser não mais do que personagens secundárias à narrativa, meros objectos que demonstram a obsessão de Stiller. No entanto, o segundo episódio desengana-nos. Eva (Mascha Rabben), suposta filha de Vollmer e amante de Stiller, é na verdade uma femme fatale pertencente ao mundo “lá em cima”, e unidade de contacto entre os dois mundos. Eva revela que Stiller é uma cópia de si mesmo e, após a sua morte trágica na simulação, trá-lo para o mundo real, trocando a sua mente com a do verdadeiro Stiller. No final do filme, ele está em êxtase, repetindo “Eu existo” enquanto abraça e beija Eva. No fundo, esta é também uma história de amor. A última imagem é a do corpo morto de Stiller no mundo artificial e deixa-nos com a questão: “Será o novo mundo onde se encontra verdadeiramente real?”.

Com este filme, Fassbinder presta homenagem a Alphaville (1965), filme futurista de Jean-Luc Godard, quer no uso do género de ficção científica cruzado com cinema noir, como na presença de Eddie Constantine num pequeno papel dublado. O elenco inclui também vários actores que são caras familiares na obra de Fassbinder, incluindo Löwitsch que nos apresenta uma performance sublime e hipnotizante. Zoom-ins repentinos, acompanhados por música alucinante que soa a interferências digitais, ajudam a criar tensão e fazem-nos duvidar da nossa própria lucidez.

A complexidade desta obra justifica as quase 3 horas e meia de duração. Apesar de um primeiro episódio mais lento, a segunda parte deixa-nos rendidos à intrigante narrativa. Um filme muito à frente do seu tempo, este marco notável na carreira do realizador alemão faz-nos questionar o papel da tecnologia nos dias de hoje, e o poder dos que a comandam. Debruça-se também sobre o que é a realidade e a relação entre esta e a nossa consciência. Ver O Mundo no Arame on-line neste nosso mundo digital sem “arame” (wireless), e num pequeno ecrã como teria sido visto na altura, é uma experiência única e surreal. Os filmes deste programa Raridades permitem-nos viajar para lugares invulgares sem sair de casa.

Direct translation:

🏆 Winner of the 3rd prize — Ex aequo of Cinephile Quarantine’s Rarities I competition by Medeia Filmes

**Includes spoilers**

In this new “Cinephile Quarantine” (Quarentena Cinéfila) online, Medeia Filmes presents Rarities, making films available for free in streaming. The second of these films was a restored version of World on a Wire (1973), by the illustrious German filmmaker Rainer Werner Fassbinder in his first work for television, inaccessible for almost 40 years. Based on an American novel from 1964 and released in two episodes, this science fiction mini-series was to make way to iconic films such as The Matrix (1999).

The film follows Fred Stiller (Klaus Löwitsch), employee of the Institute of Cybernetic and assistant in an artificial reality project. After the mysterious death of Henry Vollmer (Adrian Hoven), his director and with whom he co-created a simulation model, Stiller takes up his position. The Institute’s head of security tells him that Vollmer had taken with him a secret that was bothering him, capable of destroying the whole world. Before managing to reveal what that secret was, he disappears inexplicably and it seems nobody remembers he ever existed. Stiller decides to make this enigma his mission, and solve it at all costs.

Stiller enters the simulation through a helmet that resembles 2011: A Space Odyssey (1968). The artificial world looks in everything the same as “reality”, like a reflection. At the beginning of the film, Vollmer holds a mirror and says “You are nothing more than the image others have made of you”. Mirrors and reflections are frequent throughout the whole film, in glass, tables, windows and other objects. In some scenes, it becomes difficult to decipher whether what we are seeing is a reflection or not.

At the end of the first episode, Stiller is confronted with the possibility that his world is also a projection. We early discover that people (identity units) who find out that they are no more than electric circuits in an artificial world are erased from it, as happened with Vollmer. Indeed, if one day it is possible to create a simulated reality, then the likelihood that we are already in one is extremely high. Yet, Stiller is in chock, first going into denial and then a trance.

The second episode makes us question “The limit between genius and madness”, as says one of the characters. We dive into a power play, in which Stiller is accused of paranoia and of having murdered Vollmer. The search for the truth seems to drive him mad, while he tries to prove his sanity to both himself and others. “I think, therefore I am”, says Stiller evoking Descartes, makes us doubt the meaning of our reality and existence. When the woman who Stiller loves disappears in front of very own eyes, we can be certain that this world is not as real as it seems.

The representation of women is not up to the standards that Fassbinder accustomed us to with films such as The Bitter Tears of Petra von Kant (1972) or The Marriage of Maria Braun (1979). In World on a Wire, women seem to be no more than characters who are secondary to the narrative, mere objects that demonstrate Stiller’s obsession. However, the second episode disillusions us. Eva (Mascha Rabben), supposedly Vollmer’s daughter and Stiller’s lover, is in fact a femme fatale belonging to the world “up there”, and the contact unit between the two worlds. Eva reveals that Stiller is a copy of himself and, after his tragic death in the simulation, brings him to the real world, exchanging his mind with that of the real Stiller. At the end of the film, he is in ecstasy, repeating “I exist” while hugging and kissing Eva. Deep down, this is also a love story. The last image is that of Stiller’s dead body in the artificial world and leaves us with the question: “This other world where they are now, is it truly real?”

With this film, Fassbinder pays homage to Alphaville (1965), futuristic film by Jean-Luc Godard, both in its use of the science fiction genre crossed with noir cinema, and the presence of Eddie Constantine in a small dubbed role. The cast also includes several actors who are familiar faces in Fassbinder’s work, including Löwitsch who presents us with a sublime and hypnotic performance. Sudden zoom-ins, accompanied by hallucinating music that sounds like digital interference, help create tension and make us doubt our own lucidity.

The complexity of this work justifies the almost 3 and a half hours in duration. Despite a slower first episode, the second part leaves us surrendered to the intriguing narrative. A film way ahead of its time, this remarkable milestone in the German director’s career makes us question the role of technology nowadays, and the power of those who command it. It also delves into what reality is and its relationship to our consciousness. Watching World on a Wire online in this wireless digital world, and on a small screen as it would have been seen at the time, is a unique and surreal experience. The films from this programme Rarities allow us to travel to unusual places without leaving our homes.

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